Homilia na solenidade de Cristo Rei – na conclusão do Jubileu da Misericórdia

1.Hoje é um dia de acção de graças. Celebramos a solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo, no terminar de um ano litúrgico que foi rico de vivências, de desafios, de caminhos e de sonhos.

Façamos nossas as palavras de S. Paulo, na segunda leitura, em carta escrita aos cristãos de Colossos: “Damos graças a Deus Pai, que nos fez dignos de tomar parte na herança dos santos, na luz divina. Aprouve a Deus que n’Ele residisse toda a plenitude e por Ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, estabelecendo a paz, pelo sangue da sua cruz, com todas as criaturas na terra e nos céus” (cf. Col 1, 12-20). 

Hoje é um dia de gratidão ao Papa Francisco, que nos convocou para vivermos, ao longo deste ano litúrgico, o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, envolvendo-nos a todos neste movimento que a misericórdia de Deus abraça e anima.

Respondemos, de imediato, como Igreja do Porto, ao belo e oportuno convite do Papa Francisco e procurarmos viver decididamente em comunhão com ele este Jubileu, marcado pelo fascínio das bem-aventuranças do Reino e pela prática das obras de misericórdia, que veio abrir caminhos novos à missão da Igreja.

Hoje é um dia de alegria renovada, ao vermos avançar para o diaconado permanente e para o presbiterado irmãos nossos, vindos das nossas Comunidades, dos nossos Seminários e da Sociedade dos Missionários da Boa Nova, que vão ser instituídos nos ministérios de Leitor e de Acólito.

Queremos, por isso, unir nesta celebração a solenidade de Cristo Rei, a conclusão do Jubileu da Misericórdia e a instituição de ministérios de Leitor e de Acólito.

 

2. Renova-se e cumpre-se, hoje para nós, a palavra de Jesus no evangelho, agora proclamado: “Hoje estarás comigo, no Paraíso” (cf Luc 23, 35-43). Foi na cruz, entregue nas mãos do Pai, de olhar voltado para os que sofriam a seu lado e de braços estendidos à dimensão da Humanidade, que Jesus se revelou como verdadeiro Rei.

É este Jesus, o Rei e Senhor do Universo, com rosto e coração de misericórdia, que hoje celebramos. Com Ele, abriremos as portas da Igreja e do coração de cada um de nós aos que procuram Deus e sonham a salvação.

Um ano depois do início do Jubileu da Misericórdia, sentimos que foi providencial esta iniciativa do Papa Francisco. Percebemos bem como a Igreja precisava deste rejuvenescimento que irrompe da misericórdia divina, traduzida na vida de todos os dias. E não nos surpreende a alma aberta do mundo ao acolher esta iniciativa do Papa Francisco com alargada aprovação e atento interesse.

Este Jubileu anuncia e indica à Igreja caminhos novos de uma pastoral acolhedora e atenta a todos e a cada um. Uma pastoral decidida e determinada a fazer chegar a cada pessoa esta certeza de que Deus nos ama como Pai, rico de misericórdia. Uma pastoral marcada pela ternura da proximidade com os que mais sofrem e pelo imperativo do encontro solidário com os mais pobres.

Este Jubileu deu-nos a certeza e a alegria de sabermos que a porta da misericórdia divina está sempre aberta para nos conduzir a Deus na procura da reconciliação, do perdão e da paz. Este Jubileu incentivou-nos a não guardarmos apenas para nós esta experiência de misericórdia e esta certeza de que Deus nos ama.

Com uma Igreja de portas abertas encontraremos tempo, formas e motivação para acolhermos, para acompanharmos, para integrarmos e para irmos ao encontro dos irmãos, impelidos pela força transformadora da misericórdia divina, sem a ninguém esquecer, ignorar ou excluir.

Este jubileu acordou em nós e bem para lá de nós o desejo e o dever de praticar as obras de misericórdia, com alegria. E tanto foi feito, mercê da graça de Deus e da disponibilidade de vida e de tempo de quantos acolheram este Ano Santo da Misericórdia com inesgotável alegria e encanto.

Dou graças a Deus por todos quantos trabalharam no desenvolvimento da acção pastoral que o Jubileu da Misericórdia nos inspirou. A todos testemunho, por igual, a minha alegria e a gratidão da Igreja do Porto.

 

3. Mas hoje é, também, o dia de sonhar o futuro e de proclamar, sem medo e sem descanso: “Felizes os misericordiosos”!

 

Este é o dia de intuirmos o sonho de Deus para a Igreja e para a Humanidade, conscientes de que a misericórdia é a síntese do evangelho e constitui a melhor forma de “afirmar a natureza e a missão da Igreja”.

Queremos como Igreja do Porto dar continuidade a quanto de bem este Jubileu nos trouxe; fazer que o espírito de misericórdia se consolide e perdure no coração de todos nós, bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e leigos; dar, a exemplo deste ano, tempo e atenção ao acolhimento e à celebração dos sacramentos, concretamente os sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia; intensificar, com permanente criatividade, a prática das obras de misericórdia, corporais e espirituais, a que o Papa Francisco acrescentou o cuidado com o ambiente desta casa comum, que é a criação; promover no coração das nossas cidades, cheias de oferta de espaços sempre abertos, lugares e tempos de oração, de silêncio e de formação cristã que acolham e acompanhem; pedir a Deus o dom da inquietação na procura de novas respostas para as crescentes formas de pobreza e de fragilidade e na busca de oportunidades e caminhos de perdão e de reconciliação para os pecados pessoais e sociais; cuidar dos frágeis, dos sem-abrigo, dos desempregados, dos idosos e de quantos vivem horas de dor e de luto; acompanhar e integrar tantas famílias em provação; coordenar as paróquias e instituições da Igreja em ordem à recepção mais generosa e rápida dos refugiados; trabalhar sem desânimo para construirmos um mundo melhor e uma Igreja modelada pela misericórdia divina.

 

Nesse sentido, desde já e numa continuidade sem interrupção, venho propor às famílias, às paróquias, às comunidades e à sociedade no seu todo, por que não dizê-lo, uma caminhada de Advento - Natal inspirada na ideia de sonhar sonhos de misericórdia como Deus sonha.

São passos de caminhada que queremos propor, acessíveis a todos, nas sendas felizes das bem-aventuranças do Evangelho, prosseguindo o caminho sinodal que sonhamos.

Não esquecemos que Nossa Senhora nos acompanhou, neste ano, de forma muito presente, terna e materna, na visita da Imagem Peregrina de Fátima à nossa Diocese.

Quero confiar a Nossa Senhora, nossa mãe e padroeira, nesta proximidade da celebração do centenário das Aparições em Fátima, esta amada Igreja do Porto e os seus servidores, para que nos renove sempre nas fontes da alegria e da misericórdia.

 

 

Porto, Catedral, 20 de novembro, solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo, de 2016.

António, Bispo do Porto